sexta-feira, 12 de março de 2010

Plásticas Sentimentais

Era uma terça-feira quando ela finalmente recebeu alta do cirurgião plástico que a acompanhava e pôde ser posta à prova pelo julgamento alheio. Ela então resolveu ir ao seu bar predileto, onde era facilmente reconhecida; ao chegar lá percebeu logo de cara que os seguranças não a haviam reconhecido, muito menos o rapaz do bar nem as garçonetes- mesmo que ela tenha feito o pedido habitual: uma cerveja e um pastel de camarão. O fato de ter passado despercebida a agradou bastante, pois deixava claro que estava bastante mudada. O mesmo aconteceu quando voltou a sua rotina de ir a feira, ao supermercado e passeios na praça perto de sua casa.

No começo da semana seguinte ela ainda era essa nova mulher e saiu em busca de um novo emprego através dos anúncios presentes nos classificados do jornal que pegara na casa da vizinha. No outro dia começou sua jornada por uma vaga que pudesse servir para ela, mas logo viu que não seria das tarefas mais fáceis visto que não tinha nem o ensino médio completo nem um curso técnico que pareciam fazer toda a a diferença na hora da contratação. Depois de 3 semanas procurando empregos sem sucesso algum ela decidiu que voltaria a sala de aula e terminaria seus estudos, e assim o fez.

Com muito sacrificio se matriculou no turno da noite em uma escola pública da vizinhança, preferiu deixar a manhã e a tarde desocupadas para o caso de aparecer um trabalho. Passados 4 meses de aulas e com um boletim que deixava muito a desejar ela não parecia mais tão disposta a continuar naquela rotina por outros 2 anos e meio, ela sabia que aquilo tudo não fazia sentido em sua cabeça: fatos históricos, números compostos e fracionados, localizações geográficas e literatura nada disso parecia ter uma organização lógica para serem armazenadas em sua cabeça. Durante as férias de meio de ano ela decidiu que não mais voltaria a pisar naquele- ou em qualquer outro- colégio.

A época dos festejos juninos era a mais esperada do ano por ela. Todas aquelas cores e aqueles sabores alegravam seu coração nas noites chuvosas de começo de inverno, o barulho dos fogos sendo lançados e o cheiro da pólvora queimada faziam com que se sentisse protegida de toda a violência do mundo. E a música que proporcionava uma dança na qual dois corpos pareciam ser capazes de existir ao mesmo tempo no mesmo espaço- contrariando todas as regras que havia aprendido na escola- num ritmo quase frenético que mexe com corpo e alma. Foi num desses shows de forró que ela conheceu aquele que parecia ser o homem perfeito para sua vida: empregado, de boa familia, carinhoso; eles logo se envolveram e ela passou a imaginar um futuro brilhante ao lado dele. Até que um belo dia- depois que a temporada de festejos juninos acabou- ele sumiu, e ela ficou sabendo por um conhecido que ele havia casado com uma namorada de longa data. Isso partiu seu coração de um jeito que ela jamais achou que fosse acontecer de novo desde que o pai de sua filha a deixou.

Foi quando ela começou a experimentar antigos sentimentos que ela havia julgado ter deixado para trás junto com sua antiga aparência. O desejo de não mais viver, os sentimentos de insuficiência, incapacidade, sempre estar aquém do seu potencial, de suas expectativas; ela então começou a perceber que não adiantaria muita coisa ela ir a programas de auditório, contar sua triste história de vida, ter seus atos julgados pela apresentadora, por sua familia e pela plateia que não faziam ideia do que ela sentia para ganhar a tão sonhada plástica estética se suas feridas e marcas internas não recebessem o mesmo tratamento e a mesma atenção. Mas agora era tarde demais, ela sabia que não tinha mais forças pra iniciar uma nova batalha por auto-conhecimento- talvez ela mesma nem percebesse que deveria olhar um pouco mais para dentro e entender o que se passa lá para que alguma mudança significativa pudesse ser posta em prática.

E foi nesse momento que ela, vigiada pelas câmeras controladas pela prefeitura e ignorada por aqueles que a cercavam impassivos com o semblante alheio, se jogou na frente de um ônibus que vinha em alta velocidade; entrando assim para as estatisticas de acidentes envolvendo veiculos do transporte público.